Quando perguntam em quem votariam, cada um poderia naturalmente citar o próprio nome. Mas nenhum dos dois faz isso.
O primeiro a falar é Ousmane Dembélé. Ao comentar sobre seu companheiro georgiano, o camisa 10 parisiense não demora a encontrar as palavras para explicar o que mais o impressiona. "Ele tem muitas qualidades. Acho que tem um pouco de tudo o que é preciso", afirma, antes de destacar a capacidade do colega de participar de todas as fases do jogo, tanto quando o Paris Saint-Germain está no ataque quanto quando precisa contribuir em outros setores.
Kvaratskhelia retribui imediatamente a admiração. Convidado a escolher seu voto para a Bola de Ouro, o georgiano aponta Ousmane: "Eu votaria nele porque a maneira como joga, ajuda a equipe e a lidera é realmente importante para nós. O jeito dele é incrível. Estamos simplesmente muito felizes por tê-lo na equipe e poder vê-lo jogar."
Para Kvara, portanto, a admiração vai além da qualidade técnica. Ela também diz respeito à influência de Dembélé no coletivo, à sua liderança e à capacidade de decidir os grandes jogos.
Para ilustrar essa influência, Kvaratskhelia não precisa voltar muito no tempo. Ele cita espontaneamente um dos momentos mais marcantes da temporada: o pênalti convertido contra o Arsenal. "Para mim, o mais importante foi o pênalti contra o Arsenal. A confiança que tínhamos nele... Com o placar em 1 a 0 na final da Champions League, ele pegou a bola e marcou, sem medo."
Na visão do georgiano, esse momento resume o que faz de um jogador alguém capaz de concorrer à Bola de Ouro: a capacidade de assumir a responsabilidade quando tudo está em jogo. Mas Kvaratskhelia não para por aí. Ele também se lembra do gol marcado por Dembélé contra o Olympique de Marseille, pela Ligue 1: "Foi um gol incrível. Eu estava no banco e pensei: 'Uau, como ele faz isso?' Mas todos os gols que ele marca são incríveis."
A declaração revela muito sobre a maneira como Kvaratskhelia enxerga seu companheiro. Quando perguntam qual característica do jogo de Dembélé ele gostaria de ter, a escolha se torna quase impossível: "Ele tem tantas qualidades que não sei qual escolher. Talvez a maneira como joga com os dois pés e como acelera com a bola. Quando começa a correr com a bola, é impossível alcançá-lo."
Em seguida, resume de forma simples: "Ele é cheio de qualidades."
Essa admiração é recíproca e também ajuda a explicar a qualidade da parceria entre os dois em campo. Ousmane lembra, antes de tudo, que a cumplicidade entre eles não surgiu apenas nos primeiros jogos juntos. Os dois rapidamente encontraram seu entrosamento, inclusive fora de campo: "É fácil jogar com um jogador dessa qualidade."
Kvaratskhelia também destaca essa facilidade. Para ele, o entendimento mútuo se apoia tanto na relação pessoal quanto nas qualidades futebolísticas: "Nos entendemos muito bem, tanto fora do futebol quanto em campo. É realmente fácil entender a maneira como ele joga."
O georgiano sabe, sobretudo, que, com Dembélé, um movimento pode ser suficiente: "Quando você faz um movimento, sabe que ele pode passar a bola para você onde quer que esteja, e você pode ficar cara a cara com o goleiro. Com as qualidades que ele tem, é preciso estar preparado a todo instante."
Essa leitura de jogo explica a fluidez que se vê quando os dois combinam. Não são necessárias longas conversas: os movimentos, as acelerações e os passes se encaixam quase naturalmente.
Essa proximidade torna ainda mais interessante a maneira como os dois encaram a Bola de Ouro. Apesar de serem candidatos ao prêmio, nenhum deles parece querer transformar a distinção individual em uma questão pessoal. Kvara é claro quando perguntam se poderia conquistar o troféu: "Há jogadores extraordinários entre os candidatos, e é um verdadeiro prazer fazer parte dessa disputa." Mas, logo em seguida, ele direciona a conversa para o que considera importante desde sua chegada a Paris: continuar evoluindo, manter a fome de conquistas e, acima de tudo, ganhar mais títulos com o Paris Saint-Germain.
Dembélé segue uma linha semelhante. Ele não nega a importância de sua temporada individual, mas, ao olhar para trás, destaca sobretudo o sucesso coletivo. "O mais importante foi a vitória com o Paris Saint-Germain."
Essa filosofia também explica por que nenhum dos dois tenta fazer campanha em causa própria.
Questionado se o fato de não se promoverem para a Bola de Ouro ajuda a preservar o espírito coletivo do Paris Saint-Germain, Khvicha responde com um sorriso, mas também com muita simplicidade: "Pessoalmente, sei quem é o melhor jogador. Meu amigo."
Quanto ao restante, ele acredita que a decisão cabe aos votantes. Prefere não mudar nada naquilo que permitiu ao grupo viver uma temporada tão especial: "Só queremos continuar trabalhando duro. Não queremos mudar por causa do nosso sucesso ou da nossa temporada. Queremos continuar sendo os mesmos."
Ao falar de Dembélé, o georgiano destaca justamente essa constância: "A personalidade dele é realmente diferente da de todo mundo. Ele continua sempre o mesmo. É um exemplo para mim. Então, também quero ser um bom exemplo e fico em silêncio."
Uma declaração que encontra um eco especial em Dembélé, que agora conhece a exposição que acompanha uma Bola de Ouro.
Ao relembrar sua própria cerimônia, o atacante parisiense fala, naturalmente, de uma noite especial, cercado por seus entes queridos, amigos e todas as pessoas que foram importantes em sua trajetória: "Foi uma noite incrível. Lembro daquela noite com todos os meus entes queridos, todos os meus amigos... Isso mudou minha vida."
Mas o troféu não mudou sua maneira de encarar as coisas: "A maneira como os outros me veem pode mudar, mas, pessoalmente, sempre mantive o foco e continuei sendo a mesma pessoa."
É justamente essa postura que Kvaratskhelia diz admirar em seu companheiro. E, quando chega o momento de falar sobre sua própria candidatura, Dembélé mantém a mesma linha: nada de campanha ou grandes declarações, apenas a vontade de continuar seguindo em frente. "É um evento. Mas estou focado, tranquilo. Não preciso falar."
A entrevista poderia ter colocado dois candidatos frente a frente. No fim, porém, ela conta outra história: a de dois jogadores que se respeitam, valorizam um ao outro e, quando falam sobre a temporada, voltam sempre ao mesmo ponto de partida. Os grandes jogos. Os troféus. As emoções compartilhadas. Os torcedores, o Parc des Princes. E a vontade de continuar vencendo juntos. A poucas semanas do resultado, cada um tem sua própria visão sobre o outro. Mas, quando falam do Paris Saint-Germain, seus discursos se encontram.
A Bola de Ouro é individual. A temporada deles, porém, nunca foi realmente assim.